Mobilidade Elétrica em Portugal: Onde Estamos em 2026 — e Para Onde Vamos
Há poucos anos, um veículo elétrico em Portugal era quase uma raridade nas estradas. Uma curiosidade. Algo que se via ocasionalmente nas cidades maiores, associado a quem tinha meios para se aventurar numa tecnologia ainda jovem.
Em 2026, esse cenário mudou de forma tão expressiva que é difícil ignorar os números.
Pela primeira vez na história, os veículos elétricos representam quase 70% das vendas de automóveis ligeiros em Portugal. O carro a gasolina, que durante décadas dominou o mercado nacional, passou para segundo plano.
Mas onde está exatamente a mobilidade elétrica portuguesa neste momento — e o que falta para o próximo passo?
Os números que estão a mudar o mercado
Os dados do primeiro trimestre de 2026, divulgados pela ACAP, não deixam margem para dúvidas sobre a direção do mercado.
De janeiro a março de 2026, foram matriculados 44.484 veículos elétricos — um crescimento de 33,7% face ao mesmo período de 2025. Num total de 64.059 ligeiros de passageiros matriculados, os elétricos representaram 69,5% do mercado.
Os veículos 100% elétricos, por si só, somaram 15.136 matrículas nos primeiros três meses do ano, com uma quota de 23% — e crescimento de 24,3% face a 2025.
Para colocar em perspetiva: os carros exclusivamente a gasolina e gasóleo ficaram-se pelos 13.769 veículos no mesmo período, uma quota de apenas 21,5%.
O ponto de cruzamento já aconteceu. Os elétricos ultrapassaram os combustão.
2025: o melhor ano de sempre
O arranque forte de 2026 tem raízes num 2025 histórico para a mobilidade elétrica em Portugal. O parque nacional de veículos 100% elétricos cresceu 37,7%, com mais 83.632 unidades matriculadas ao longo do ano — o melhor resultado de sempre, com recordes mensais sucessivos.
Em agosto de 2025, pela primeira vez, os elétricos foram a motorização mais vendida em ligeiros de passageiros. Em setembro, ultrapassaram a soma dos carros a gasolina e gasóleo. Em novembro, lideraram o total de todas as categorias de veículos.
O que era tendência passou a ser realidade.
A rede de carregamento: crescimento real, desafios concretos
As vendas contam uma parte da história. A infraestrutura de carregamento conta outra — e é aqui que o retrato é mais complexo.
O que já existe
Portugal encerrou janeiro de 2026 com 14.102 pontos de carregamento operacionais na rede nacional, dos quais mais de 2.850 são postos rápidos ou ultrarrápidos.
A utilização da rede cresceu a um ritmo acelerado: em janeiro, registaram-se mais de 825.000 sessões de carregamento — um aumento de 36% face ao período homólogo. O número de utilizadores registados ultrapassou os 174.600, um crescimento de 73% face ao início de 2025.
O impacto ambiental começa também a ser mensurável: só em janeiro, a rede Mobi.E evitou a emissão de mais de 15.000 toneladas de CO₂ — o equivalente a uma floresta de 250.000 árvores.
O que ainda falta
Os números positivos coexistem com desafios que não podem ser ignorados.
A distribuição da rede continua assimétrica: a cobertura é satisfatória nos grandes centros urbanos, mas escassa nas zonas rurais e periurbanas. Quem vive fora de Lisboa, Porto ou do litoral enfrenta ainda dificuldades reais para encontrar postos próximos.
Um relatório recente da RetailSonar alerta que a rede pública cobre apenas 40% da capacidade necessária para a próxima década. Com a frota elétrica nacional a dever crescer dos atuais 269.000 para cerca de 797.000 veículos até 2030, serão necessários mais 521 MW de capacidade adicional.
Há também o problema do carregamento em casa. Cerca de 43% dos utilizadores de veículos elétricos em Portugal referem dificuldades em carregar em casa, sobretudo quem vive em apartamentos sem estacionamento próprio ou em condomínios onde a instalação de postos enfrenta obstáculos burocráticos e logísticos.
O novo regime jurídico: o que muda em 2026
Para além dos números do mercado, 2026 é também o ano em que Portugal transita para um novo modelo de gestão da mobilidade elétrica.
O Novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica (RJME), aprovado pelo Governo e em período de transição até 31 de dezembro de 2026, traz mudanças estruturais que vão afetar todos os utilizadores de veículos elétricos:
Fim dos contratos obrigatórios para carregar — Até agora, carregar num posto público exigia contrato com um comercializador de energia. Com o novo regime, o pagamento passa a ser feito diretamente no posto, sem intermediários.
Transparência de preços — À semelhança das bombas de combustível tradicionais, todos os postos de carregamento terão de exibir os preços de forma clara e visível antes de carregar.
Mais concorrência, mais operadores — A Mobi.E deixa de ser a única rede de carregamento pública. Novos prestadores de serviços poderão criar e gerir as suas próprias redes, o que deverá aumentar a competitividade e baixar preços.
Instalação de postos mais simples — O processo de instalação de novos postos deixa de exigir licença, bastando uma comunicação prévia. Na prática, isto deverá acelerar a expansão da rede.
Estas mudanças representam uma maturação do setor — a passagem de um modelo experimental e centralizado para um mercado mais aberto, competitivo e orientado ao utilizador.
Para onde vamos: o que esperar a seguir
Os sinais apontam para uma aceleração, não para uma estagnação.
O estudo do Observatório ACP, publicado em março de 2026, considera este o ano de viragem da mobilidade elétrica em Portugal. O consumidor português está mais informado, mais confiante e mais disposto a adotar soluções elétricas. Cerca de 37% dos condutores consideram provável comprar um carro elétrico em segunda mão — um aumento de 19 pontos percentuais face a 2025 —, o que sinaliza o início de um mercado de usados elétricos com expressão real.
A micromobilidade elétrica — scooters e bicicletas elétricas — está também a crescer em paralelo, com um papel cada vez mais relevante nas deslocações urbanas de curta distância.
Os desafios continuam: o preço inicial dos veículos, as assimetrias na infraestrutura de carregamento e as dúvidas persistentes sobre a durabilidade das baterias são fatores que ainda travam a adoção em franjas significativas da população. Mas a direção é clara.
Em 2026, a mobilidade elétrica em Portugal já não é uma tendência. É o novo normal.
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Fontes: ACAP, UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, Mobi.E, RetailSonar, Observatório ACP (2026).